Aqueles entre vocês que têm alguma memória não lesada pelo consumo habitual de cigarros exóticos, ou pelo vício em tevês a cabo, podem se lembrar da minha promessa de uma destemida entrevista reveladora sobre a vida de um certo JOHN CONTANTINE.
Como é fascinante, pensei, e relevante para nossas vidas sorver as enigmáticas variações das experiências deste homem dissimulado. Equipes de delicados pesquisadores mais diligentes do que o FBI, foram empregadas. Acordos sub-reptícios foram feitos - números telefônicos bem guardados obtidos ou extorquidos de relutantes curadores. Afinal um contato foi estabelecido e um encontro, num território neutro, arranjado.
Por isso, numa quente e arenosa noite de verão, despensei meu habitual coquetel do happy hour para atravessar o rio, rumo ao sul, na direção de "Injun Country". Meu humor estava esperançoso. Eu podia ver a manchete de capa. "Satchmo Hawkins - Entrevista exclusiva com John Constantine."
Por isso, fiéis companheiros, ponham aí um disco de Tom Waits, liberem a imaginação e sigam-me rumo ao caminho das trevas. Acreditem, eu posso precisar de companhia!

Não muito longe de Clapham Junction, depois de muitos meados para cima e para baixo em ruas estreitas e escuras becos sem saída. O motorista cessa sua torrente de invectiva - bastante ilustrativa sobre alguns dos aspectos mais finos do sexo interespécies - e freia bruscamente sua carruagem diante de uma taberna de aspecto pouco salubre, chamada THE BUTCHER'S HOOK (O Gancho do Açougueiro). Grande, você diz. Tremenda atmosfera: bem classe operária... perfeito. Você paga o táxi (mais do que o de praxe, mas e daí? Ninguém vai questionar gastos para uma entrevista com John Constantine).
O interior do boteco encardido assemelha-se, na cor e atmosfera, aos pulmões de um fumante de três maços por dia. As paredes praticamente purgavam nicotina. A gente se arrepende de ter saído de roupa branca!
Nenhum sinal de Constantine ainda - apenas alguns pacientes geriátrico
observando silenciosamente seus meios-quartilhos de cerveja evaporar. Pobres infelizes. Deve ser difícil custear suas bebidas e cigarros quando se vice de aposentadoria.
Você pede um quartilho de cerveja ao barman que, sem dúvida é ex-lutador de luta livre - a cabeça parece um bloco de motor encarapitado sobre um pescoço de velhos pneus carecas. Ele cobra uma libra a mais do que o preço normal. O cara sabe que você não vai discutir e tem toda razão.
Chegar antes de Constantine dá oportunidade de averiguar que novo gravador japonês está funcionando e de repassar a estratégia de sua entrevista.
Começar com um papo inócuo sobre música - a ascensão e a queda dos punks, etc. - enquanto você afrouxa o sujeito com alguns drinks. Então, talvez você acerte com a "Conexão Super-Herói". Pode ser que obtenha uma boa informação sobre os boatos de envolvimento entre ele e ZATANNA. Isso só pode nos levar ao ocultismo ao exorcismo de Newcastle, o gabinete assombrado do ministro e histórias do tipo. Você vai ter que tomar cuidado sobre Newcastle. Ele pode ser um tanto sensível ao assunto...
Três horas e oito quatrilhos de cerveja Pilsen depois, você começa começar a desconfiar que Constantine não vai aparecer. O bar agora está repleto de bebedores contumazes. A conversa na mesa ao lado - entre sujeitos mal-encarados -, embora em grande parte inaudível, auferiu intrigantes fragmentos que parecem dizer respeito a provável rota de um carro blindado da Securicor e dos possíveis métodos de deter e arrombar o maldito veículo.
Você resolve tomar mais um drink para dar a Constantine a última chance de chegar atrasado. Você procura atravessar a multidão rumo ao balcão, onde parece haver três hipopótamos copulando - uma ilusão gerada pelo álcool e pelo ar praticamente opaco em decorrência da fumaça de cigarro barato. Os hipopótamos são na verdade sedentos peões-de-obra - perigosos mas não tão exóticos. Como você não deseja dar cabo de sua vida ficando entre uma incontrolável barriga de cerveja e seu décimo quartilho de
Guiness, você vira a esquerda e se dirige ao banheiro.
É como pisar no Inferno. A vala do mictório estava entupida por pontas de cigarro; o chão transformado num malcheiroso lago, manchando o bico do seu sapato de couro italiano. Antes que você pense em ir embora, o aperto da bexiga fala mais alto. A necessidade supera a náusea. Você se mantém firme, com uma mão apoiada na parede pegajosa indagando-se que doenças são transmitidas por via cutânea. Um garrancho de grafite grita amargamente à altura do olho: SOLTEM AS BOMBAS AGORA. ACABEM DE VEZ COM NOSSO SOFRIMENTO. O sentimento parece magistralmente adequado ao ambiente.
A entrevista da década se transformou num desastre total. Quando você se volta para deixar o pântano infecto, a porta se abre e dois dos freaks do carro blindado da mesa ao lado entram. Eles têm rostos que parecem lápides de sepultura. Com o olhar baixo você caminha para passar por eles. Uma mão do tamanho de um pequeno carro salta rumo ao seu rosto. Há um estaliço agudo em algum lugar bem lá dentro de sua cabeça - de repente você está sentado com a bunda imersa em duas polegadas de mijo envelhecido.
Um pesado borzeguim planta-se firmemente em suas costelas. Você sente seu gravador novo se desintegrar. A dor faz com que sinta enjôo. Você está enjoado!
Uma lápides se aproxima de você e uma mão arranca o aparelho eletrônico fragmentado de dento do seu bolso interno.
"Viu, não te falei que ele tava ligado? Pra
quem o viado trabalha? O velho Bill" "Não nem mesmo o Bill ia ter um frufru desses na força. Esse porra é só um bosta de repórter!" Uma das mão gigantescas esmaga sua traquéia e ergue seu corpo do chão. Com um hálito de cemitério, a lápide fala com a sua cara. "Escutaqui seu babaca metido. A gente é os Dodkins Bruvvers, tá sabendo? E, se tu aparecer aqui de novo, a gente vai te meter esgoto abaixo, sacou?"
Eles arrastam você, deixando uma trilha viscosa e fedorenta pelo bar, e o jogam, escandalosamente - grato pela clemência que manifestaram - na sargeta. Um táxi aparece. O motorista abaixa o vidro da sua janela e fala.
"Tu és um tal de Satchmo Hawkins?"
Você meneia a cabeça debilmente.
"John Contantine me mandou. Disse que sente muito mas pintou outra coisa. Ele se picou pra Nova York."
"Era pra eu te levar pra casa, mas tu é que não entra no meu carro nesse estado. Tá mais fedido que um cachorro morto!"
Você acompanha com os olhos o carro descer velozmente a rua. Sente-se enjoado novamente. A caminhada de volta pra casa leva duas horas.

E esta, bom leitor, é a história da entrevista que foi sem nunca ter sido. Por isso, se alguma vez nós nos encontrarmos no mesmo bar, apresente-se. Nós vamos conversar sobre o tempo, o Produto Interno Bruto ou a novela das oito, mas jamais mencione John Constantine pra mim. Eu não quero mais ouvir falar no nome daquele filho da puta.