Depois dos acontecimentos de Newcastle, John foi considerado como louco e encarcerado em um hospital de segurança máxima chamado Ravenscar, por onde ficou por dois anos.

John em Ravenscar

Os dias de John no hospital eram um tanto quanto ruins... com médicos administrando E.C.T que sabiam ser inútil, John ficava o tempo todo tremendo, e era incapaz de dizer o próprio nome com medo de morder a língua.

Mas as noites eram ainda piores.

Quando todos os pacientes eram sedados e trancafiados em seus quartos, os auxiliares de enfermagem apareciam na cela de John e torturavam-no por horas.

Eles ouviram dizer que ele havia matado uma garotinha em Newcastle, e alguns deles tinham filhos. Quebravam seus dedos e arrancaram dentes, deixando marcas que os médicos, também pais de família, ignoravam pela manhã.

Batiam nele todas as noites, e a única razão por que os odiava é por não cortarem sua garganta para acabar de vez com aquela agonia...


Hospital de Segurança Máxima de Ravenscar: Arquivo Confidencial

Item: Transcrições de notas manuscritas, encontradas no lixo da enfermaria.

Paciente: CONSTANTINE, John
D.H.S.S. nº yx537258d
N.H.S. nº MPLQ514
Médico Responsável: Dr. Roger HUNTOON

Notas: Em minha opinião, o paciente encontra-se no pólo depressivo do ciclo traumático. Possivelmente PERIGOSO. Mantê-lo sob OBSERVAÇÃO CONSTANTE e REGIME DE CONTENÇÃO.
Esse paciente é dotado de elevado QI e inteligência anormal.
NÃO O SUBESTIMEM.
R.H.

Trecho A

A maldita medicação faz a gente parar de SONHAR. Eu estou feliz por ter me livrado dos PESADELOS. Só fui perceber agora. Meu Deus, lançado no limbo pelas substâncias químicas, heim? Então, esse é o jogo deles. Muito bem, a partir de agora, os comprimidos vão direto pra latrina - ah, lá vão eles rodopiando no vórtice, debatendo-se na porcelana e descendo os canos - gorgolejando para o esgoto.
Quem me dera poder ir atrás deles - sonhos molhados, agora? Não eu prefiro enfrentar os terrores em meu próprio território - com minha própria magia.
Conheço alguns truques para enfrentar demônios - alguns até funcionam.
Que venham as merdas dos pesadelos, trazendo suas afiadas mandíbulas para marcar a tranqüila e silenciosa noite e transformá-la em andrajos - eu sou um jogador. Vou arriscar minha sorte na Loteria da Santa Catarina.......

Trecho B

Sonhos na noite passada, pela primeira vez no que me parecem meses. Talvez sejam mesmo. O tempo parece ser condensado neste maldito lugar de loucos.
Estou numa sala de espera - de médico ou dentista - mobília de couro e tecido de crina - diploma emoldurado na parede - copias da NATIONAL GEOGRAPHIC e CONTRY LIFE numa mesa de vidro.
Estou esperando. Parece que esperei muito tempo - mas pelo quê? Estou nervoso e agitado - há leves e misteriosos sons a distância: vozes, aparelhos. Alguma coisa importante está acontecendo - um ritual secreto está ocorrendo na sala de cirurgia. Logo será minha vez.
Olho pra capa de uma NATIONAL GEOGRAPHIC. Mostra uma mulher negra, nua - os seios nus, repletos de marcas tribais. Por alguma razão, fico fascinado por isto. Olho para baixo e me surpreendo ao ver joelhos desnudos e manchados de tinta. Estou usando calças curtas. Sou um escolar.
Uma menina - cerca de treze anos - entra na sala de espera. Ela tem um sorriso estranho na boca. Aproxima-se e pára diante de mim. Tem um cheiro quente.
"Como foi?", eu lhe pergunto.
"Não posso contar pra você. É um segredo - de gente grande."
"Toma. Come isto."
Ela coloca um pequeno losango na minha boca. É purgente, aromático - como o gin da vovó. Uma fruta proibida.
Há risos e, da sala de cirurgia, meu nome é chamado. É minha vez agora de aprender os segredos. (Bem, esse é muito óbvio - melhor não deixar os psiquiatras porem as mão em nenhuma dessas anotações. Que os cornos se empenhem para ganhar seus salários.)

Trecho C

Outro sonho de infância - com minha irmã Cheryl.
É uma noite fria de começo de inverno - deve ser sábado, os resultados dos jogos estão na tevê - logo vai estar passando DR. WHO. Eu estou no pátio, empoleirado no telhado coberto de fuligem em frente a janela do quarto da minha irmã. Ela não pode me ver. Está com as luzes acesas.
Ela está se despindo - tirando as roupas baratas que usa para seu bico de sábado na Woolworth - parando, nua em pêlo, para beijar uma foto do Paul McCartney pregada na parede, antes de pegar a maquiagem e suas roupas "de sair".
Já vi isto muitas vezes antes. Sei tudo de cór. As meias pretas - a mini-saia e o suéter - o cinto de couro. Fico fascinado pela maneira como ela põe sua roupa, as caretas que faz no espelho quando coloca seus cílios postiços, como aranhas gigantes, e maquia o rosto para o torneio sexual na discoteca de Leeds. Eu a observo respirando a acalmante fumaça de carvão que flutua em ondas geométricas, saída dos canos de chaminés vermelhas, perdida em claustrofóbica nostalgia de uma noite urbana inglesa.
Eu gosto de olhar.
(Hmmm, outra que eu tenho de esconder dos psiquiatras. Caso contrário, vão acrescentar voyeurismoe incesto à minha lista de pecados.
Cheryl, heim? Pensei que ela viria me visitar.
Coitadinha, deve estar ocupadíssima. A última coisa que ouvi falar dela é que estava grávida e ia se casar com aquele inútil do Tony Masters. Ela ia se virar melhor sozinha.)

O TRECHO ACIMA REPRESENTA RECONTRUÇÕES FEITAS A PARTIR DE RESTOS QUEIMADOS DE UM CADERNO DE ANOTAÇÕES DESTRUÍDO.

Todas as evidências disponíveis atribuem sua autoria ao paciente referido acima.